
O novo site sobre a obra do antropólogo, escritor, médico e professor universitário Thales de Azevedo reúne 1.697 cartas de sua autoria dirigidas a instituições culturais, a seus colegas de trabalho e amigos intelectuais. Trata-se de uma documentação inédita e muito importante para esclarecer os bastidores das teses elaboradas no Programa de Estudos Sociais Estado da Bahia e Universidade de Columbia, coordenado por Thales de Azevedo e Charles Wagley.
“A correspondência de um autor constitui uma fonte muito importante para a compreensão de sua evolução cultural, relação com outros intelectuais e os contextos históricos em que suas obras foram escritas”, ressalta Paulo Ormindo, filho do antropólogo, idealizador do projeto e professor aposentado da UFBA. O material pode ser acessado no site https://thalesdeazevedoantropologo.com.br
Thales de Azevedo foi um dos pioneiros da Antropologia Social no país, e escreveu um dos primeiros estudos antropológicos sobre relações raciais na Bahia, publicado incialmente na França, em 1953, e que resultou no livro lançado no Brasil com o título “As elites de cor; um estudo de ascensão social”. Abordou em seus estudos temas ligados à medicina, nutrição e alimentação, etnografia histórica, história e relações Estado-Igreja, e ministrou seminários e cursos em diversas universidades estrangeiras nos Estados Unidos e na Europa.
As primeiras correspondências de Thales de Azevedo datam do final da década de 1920. Para os seus colegas antropólogos, as missivas iniciadas em 1942 já compreendiam Gilberto Freire e mestres da Columbia University. Mas sua correspondência não se restringiu aos profissionais das Ciências Sociais. Ele trocou cartas com muitos literatos, entre os quais Clarice Lispector, Fernando Sabino, Manoel Bandeira, Mário de Andrade. Em 1951, Anísio Teixeira o indicou, como representante da Secretaria de Educação e Saúde da Bahia, para coordenar e conceber, conjuntamente com o professor Charles Wagley, o Programa de Pesquisas Sociais Estado da Bahia-Columbia University.
“Graças a essa tradição de estudos sociais, alguns antropólogos e sociólogos de outras universidades estrangeiras vieram desenvolver suas teses na Bahia, sob orientação de Thales de Azevedo, como Eul Soo Pang, sobre o coronelismo; Carlo Castaldi e Ralf Della Cava, sobre religiosidade popular, e Daniel Gross, sobre a cultura do sisal no sertão semiárido”, destaca Ormindo. Também desenvolveram suas teses na Bahia nomes como William Hutchinson (Bill) no Recôncavo; Marvin Harris, na Chapada Diamantina; Benjamin Zimmermann (Ben), no Sertão (Monte Santo) e Antony Leeds, na Região Cacaueira. Com bolsa da Fundação para o Desenvolvimento da Ciência na Bahia, Rollie Poppino desenvolveu tese sobre Feira de Santana, e Conrad Kottak sobre os hippies em Arembepe, todos sob orientação de Thales e Wagley.
De acordo com Paulo Ormindo, o material revela as relações de Thales de Azevedo com os grandes mestres da Antropologia Cultural da Columbia, como Melville Herskovits e Margaret Mead, além dos brasilianistas Thomas Skidmore e Shepard Forman e antropólogos e historiadores sociais europeus, como Emanuel J. Kadt, Magnus Mörner, John Russell Davis, C. R. Boxer e os portugueses Adriano Moreira, Ernesto Veiga de Oliveira, Jorge Dias, e Orlando Ribeiro.
O novo site incorpora o material já publicado, incluindo artigos de jornal, acrescentando ao endereço eletrônico as cartas enviadas e a correspondência recebida. Um lado menos conhecido como artista plástico pode ser acessado pelo público na seção que disponibiliza a reprodução de quadros pintados por Azevedo. O site também poderá ser atualizado com material inédito, como a tradução de teses que foram defendidas no exterior e que nunca haviam sido traduzidas para o português. Conforme conta Paulo Ormindo, alguns desses trabalhos deverão ser traduzidos e publicados.
As cartas foram indexadas e escaneadas com o auxílio da professora de arquivologia, Ivana Severino, e do mestrando em arquivologia do Instituto de Ciências da Informação da UFBA, Niury Magarefe. Thales de Azevedo Filho foi responsável pela elaboração do primeiro site, cujo material foi incorporado ao projeto atualizado.
Thales de Azevedo e a UFBA
Thales de Azevedo formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia (1922/27), quando foi interno da Cadeira da Clínica Ginecológica do Prof. José Adeodato de Souza. Após a graduação em medicina, ele clinicou no município de Castro Alves, no interior da Bahia, entre 1929 e 1933, quando escreveu os primeiros ensaios médicos já com preocupações sociais. Enquanto professor universitário, atuou em sua passagem pela Faculdade de Medicina da Bahia como assistente dos cursos de Farmácia e Medicina (1936/37).
A partir de 1942, ampliou a sua atuação para as Ciências Sociais quando recebeu convite para ensinar Antropologia na recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Bahia – hoje Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FCH) da UFBA – onde ensinou entre 1943 e 1969.
Recebeu inúmeros prêmios e homenagens por sua trajetória. Entre elas, um dos pavilhões acadêmicos da UFBA leva seu nome: Pavilhão de Aulas Prof. Thales de Azevedo, localizado no campus de São Lázaro.
O evento de lançamento do novo site com a publicação de sua correspondência foi realizado em julho deste ano, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA. O lançamento do material a nível nacional aconteceu no final de julho, durante a 35ª. Reunião da Associação Brasileira de Antropologia, em Goiânia.