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Prêmio Capes de Teses 2026: UFBA tem cinco destaques com uma premiação e quatro menções honrosas

Autor: 
Josemara Veloso
Prêmio Capes de Teses

 

Cinco teses produzidas na UFBA obtiveram reconhecimento no Prêmio CAPES de Tese 2026: "O exílio da memória: Milton Santos e a ditadura civil-militar", de autoria de Bruno de Oliveira Moreirra foi vencedora como melhor tese na área de História. Outras quatro teses receberam menções honrosas nas áreas de Artes/Dança, Enfermagem, Engenharia e Interdisciplinar/ Estudos Étnicos e Africanos. A solenidade de entrega da premiação está prevista para acontecer até 30 de novembro de 2026, conforme o edital do prêmio, e fará parte das comemorações dos 75 anos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). 
 
"Os resultados da UFBA nesta edição do Prêmio CAPES de Tese são motivo de grande satisfação e demonstram a qualidade, a relevância e a diversidade da pesquisa desenvolvida em nossos programas de pós-graduação. Ter cinco teses reconhecidas, sendo uma vencedora e quatro com menção honrosa, evidencia a excelência da formação de nossos doutores e a capacidade da UFBA de produzir conhecimento científico, tecnológico e socialmente relevante", afirmou a pró-reitora de Ensino de Pós-Graduação da UFBA, Dayana Bastos Costa. 
 
"Esse reconhecimento é o resultado do trabalho de estudantes, orientadores, programas de pós-graduação, unidades acadêmicas e de toda a comunidade universitária. É importante destacar que, por trás de cada tese premiada, há uma trajetória de pesquisa, formação e dedicação que contribui para fortalecer a Universidade e a ciência brasileiras", disse a pró-reitora, apontando que a conquista "amplia a visibilidade nacional da pós-graduação da UFBA e reforça a confiança na qualidade da formação oferecida pela UFBA".
 
Em sua visão, "mais do que uma premiação individual, essas conquistas projetam nossos programas, grupos de pesquisa e áreas de conhecimento, fortalecendo a imagem da UFBA como instituição capaz de formar pesquisadores e de avançar na produção do conhecimento com excelência. Além disso, esses resultados têm um importante efeito inspirador pois mostram aos estudantes e pesquisadores que as pesquisas desenvolvidas na Universidade alcançam reconhecimento nacional e geram contribuições relevantes para a ciência e a sociedade", completou Dayana Bastos.
 

 

Confira abaixo os destaque da UFBA no Prêmio Capes de Teses 2026.  
Resultado
Autor(a)
Área
Programa de Pós-Graduação 
Título da tese
Orientador (a) /
Coorientador (a)
Prêmio CAPES de Tese
Bruno de Oliveira Moreira
História
Programa de Pós-Graduação em História
Lucileide Cardoso
Menção Honrosa
Jorge Luiz Alencar Sampaio
Artes
Programa de Pós-Graduação em Dança
Lúcia Helena Alfredi de Matos
Menção Honrosa
Marimeire Morais da Conceição
Enfermagem
Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde
Climene Laura de Camargo /
Maria Ribeiro Lacerda
Menção Honrosa
Caroline Silva Araújo
Engenharias I
Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil
Dayana Bastos Costa/
Emerson de Andrade Marques Ferreira e Fabiano Rogério Corrêa
Menção Honrosa
Giovanna De Carli Lopes
Interdisciplinar
Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos
Cristiane Santos Souza /
 Liliane de Jesus Bittencourt
 
 
*TESE PREMIADA:  Milton Santos, ditadura militar e memória
 
Contemplada com o prêmio na área de História, a pesquisa O exílio da memória: Milton Santos e a ditadura civil-militar foi realizada pelo doutor em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia (PPGH-UFBA),  Bruno de Oliveira Moreira (foto), sob orientação da docente, Lucileide Cardoso. O estudo foi elaborado a partir das experiências de pesquisa no Mestrado, quando Moreira analisou a imprensa baiana em perspectiva histórica, especialmente a cobertura de temas internacionais durante a chamada 'Guerra Fria'.
 
De acordo com o autor, que é professor de História do Instituto Federal da Bahia - Campus Santo Amaro, durante o levantamento de fontes, ele se deparou com textos escritos por Milton Santos sobre a revolução cubana, derivados de uma viagem realizada em 1960, e que foram publicados no Jornal A Tarde, no mesmo ano.  Moreira descobriu que, com o golpe de 1964, “Milton Santos foi preso e obrigado ao exílio, e suas opiniões públicas, inclusive as dos textos sobre Cuba, eram recorrentemente levantadas como possíveis motivações das perseguições que sofreu após a instauração do regime ditatorial”.
 
O pesquisador contou que “encontrar o Milton Santos jornalista, intelectual público na Bahia dos anos 1960, foi o ponto de partida para o trabalho desenvolvido no doutorado, já que tinha muito interesse em entender, quais mecanismos foram utilizados pela ditadura para constituir seus esquemas repressivos contra seus alvos políticos, o que incluía intelectuais públicos como Santos”.
 
A pesquisa durou mais tempo do que o que estava inicialmente previsto: “se contarmos todo o processo, inclusive o período de elaboração do projeto antes mesmo da aprovação na seleção do doutorado, foram mais de sete anos de pesquisa. Além disso, foi atravessada pelo impacto da pandemia covid-19 em que os acervos foram fechados e houve maior dificuldade para o levantamento de algumas fontes, e eu precisei readaptar o cronograma”, relembrou.
 
“Neste sentido, a sensibilidade do Conselho Universitário da UFBA em adiar os prazos para finalização dos cursos de pós-graduação foi fundamental para que eu pudesse reorganizar o fluxo, disse Moreira, enfatizando que também recebeu apoio da instituição em que é docente – o Instituto Federal da Bahia.  Já com a pesquisa em curso, pude concorrer a uma vaga em edital de afastamento, e, aprovado, desenvolver parte significativa do trabalho com dedicação integral à pesquisa”, explicou.
 
Além disso, o pesquisador conseguiu levantar documentos fora do país, pois através do edital CAPES-PRINT/UFBA (Doutorado Sanduíche), realizou um estágio de pesquisa na França, primeiro país do longo período de exílio de Milton Santos. Outro ponto importante foi o acesso ao acervo pessoal de Santos, guardado pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP, instituição que o atendeu prestativamente, durante todo o período de estudo. 
 
“A primeira contribuição da tese premiada que ela é historiográfica, na medida em que o trabalho logrou êxito ao construir conceitos para se estudar a instauração da ditadura na nossa sociedade, a partir da análise do caso de Milton Santos. Compreendi que, para entender o seu caso (e de outros brasileiros e brasileiras perseguidas), é importante entender o influxo das ‘dinâmicas de conformação’, como chamo na tese, em diálogo com outros autores/autoras”, ponderou Moreira.
 
Ele observou que “certas instituições produziram ajustes conformativos à nova ordem ditatorial instituída, e isso repercutiu na forma como a ditadura alcançou as pessoas. Pensando a Universidade, especificamente, avalio que este trabalho também tem uma representatividade por ter levantado documentos internos da instituição, que permitem observar como o caso de Santos foi tratado no âmbito universitário, incluindo aspectos de sua exoneração em 1969 – em decorrência das pressões da ditadura –, até a sua reintegração ao posto de docente, que ocorreria somente em 1994 na gestão de Felipe Serppa. A ditadura incidiu na forma como a Universidade tratou esse seu docente, e este trabalho possibilita uma melhor compreensão sobre esses caminhos e descaminhos”, orientou.
 
Em relação a estudos futuros, Bruno Moreira pretende “compreender melhor a fase em que Milton Santos ajudou a planejar a Bahia. Como presidente da CPE, Comissão de Planejamento Econômico do Estado, Santos atuou, às vésperas do golpe de 1964, no esteio de um reformismo que inspirava sua geração, pretendendo reformas importantes para as forças produtivas e para as relações de trabalho na Bahia. O golpe de Estado de 1964 interrompeu essas ideias, esses fluxos. A ditadura criminalizou o reformismo, e engavetou projetos que só seriam retomados décadas depois, ou nem seriam mais resgatados. Portanto, desejaria explorar mais as inspirações de Santos neste período, e como suas ideias para o planejamento ainda são potentes nos dias de hoje.
 
Os estudos de Moreira atestam que Milton Santos foi um dos maiores intelectuais que esse país já possuiu por isso, suas ideias merecem ser visitadas com empenho, inclusive aquelas elaboradas quando era um jovem homem público da Bahia dos anos 1950-1960. Diante disso, ele torce que sua pesquisa possa inspirar outras. 
 
A tese de Bruno Moreira está disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/43313 .
 
 
MENÇÕES HONROSAS
 
* Destaque nas Engenharias
A tese que recebeu citação meritória na área das Engenharias foi “Digital Twin System for Managing and Controlling Physical Resources During Construction Activities: Application in the Concrete Walls Constructive System” (Sistema de Gêmeos Digitais para o gerenciamento e controle de recursos físicos durante as atividades de construção: aplicação no sistema construtivo de paredes de concreto), elaborada pela doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da UFBA, Caroline Silva Araújo (foto).
“Estou imensamente feliz e honrada com esse importante reconhecimento nacional (Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese - Edição 2026), que valoriza o mérito e a relevância do trabalho realizado, e muito motivada para seguir construindo novos caminhos na pesquisa na Construção Civil”, comemorou Caroline, que esteve sob orientação da docente Dayana Bastos Costa da UFBA e coorientada pelos também docentes, Emerson de Andrade Marques Ferreira e Fabiano Rogerio Corrêa (USP).
 A pesquisa baseou-se num trabalho prévio na mesma linha de pesquisa, desenvolvido durante o Mestrado de Caroline, também no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da UFBA. Foi norteada pela “realidade em que a indústria da construção civil transforma a sociedade, já que está diretamente ligada à criação dos espaços onde as pessoas vivem e trabalham diariamente e como ela enfrenta desafios relacionados à produtividade e à qualidade, quando comparada a outras indústrias”, disse a autora.
 
“Por outro lado, tecnologias digitais inovadoras têm surgido e avançado nos últimos anos, apresentando grande potencial para enfrentar esses desafios. Entre elas, um conceito tecnológico tem se destacado recentemente: os Gêmeos Digitais, ou Digital Twins”, racionalizou. Ela explica que o conceito foi desenvolvido em setores como a indústria de manufatura e a indústria aeroespacial e permitem conectar o mundo físico ao digital por meio de tecnologias computacionais, para monitoramento, controle e análise de elementos e processos físicos a partir de suas representações digitais, que são atualizadas por meio de dados coletados com sensores e dispositivos eletrônicos”.
 
Caroline complementa que “o uso integrado a conceitos e tecnologias já consolidados, como a Indústria 4.0 e a Construção 4.0, a Internet das Coisas (IoT), a Modelagem da Informação da Construção (BIM) e a Simulação Computacional, amplia ainda mais esse potencial”. “A partir disso, surgiu a hipótese de que sistemas computacionais desenvolvidos com base nos princípios dos Gêmeos Digitais e em tecnologias relacionadas podem aprimorar a gestão e o controle das atividades e recursos físicos (pessoal, equipamentos e materiais) no canteiro de obras e, consequentemente, contribuir para o aumento da produtividade e da qualidade, gerando valor para a construção”, lembrou. Para tanto, foi estudado o sistema construtivo de parede de concreto, amplamente aplicado no Brasil e na América Latina em obras de interesse social.
 
Focada no processo construtivo mais eficiente, a pesquisa buscou contribuir para a melhoria da qualidade dessas habitações e da qualidade de vida dos futuros moradores, gerando um impacto positivo para a sociedade. “Tive a oportunidade de aprofundar meus conhecimentos sobre todos esses assuntos a partir de muitas horas de coleta de dados em obra, da revisão da literatura existente sobre o tema, das constantes discussões teóricas e práticas, além de obter uma experiência internacional, proporcionada pelo período de seis meses de Doutorado Sanduíche na University of Florida, nos Estados Unidos, financiado pelo Programa Institucional de Internacionalização da CAPES (CAPES-PRINT).
 
O trabalho, desenvolvido ao longo dos quatro anos teve muitos obstáculos. Entre os principais desafios estavam aprender, utilizar e integrar todas as tecnologias envolvidas; desenvolver e avaliar, de fato, todo o sistema, denominado Smart Twins 5.0, com seus diferentes componentes; e definir os requisitos conceituais, técnicos, tecnológicos e práticos necessários para sua futura implementação, contou.
 
Tudo isso foi pensado com o objetivo de avançar no conhecimento sobre sistemas de Gêmeos Digitais para canteiros de obras e garantir a relevância teórica e prática da pesquisa. Isso só foi alcançado graças à abordagem interdisciplinar adotada e ao trabalho em equipe, com a colaboração de alunos de iniciação científica e tecnológica e de professores dos cursos de Engenharia da Computação, Engenharia Elétrica, Engenharia de Controle e Automação e Arquitetura, além de Engenharia Civil, todos vinculados ao Grupo de Pesquisa e Extensão em Gestão e Tecnologia das Construções (GETEC) da Escola Politécnica da UFBA. 
 
Por isso, o trabalho promove inovação, ciência e industrialização, utilizando tecnologias avançadas para solucionar problemas reais, além de apresentar um impacto social relacionado ao sistema construtivo estudado. De acordo com Caroline, “a principal contribuição científica foi avançar o conhecimento sobre a aplicação dos Gêmeos Digitais no canteiro de obras, propondo e desenvolvendo o Smart Twins 5.0 e seus diferentes componentes e criando uma ponte entre teoria e prática”.
 
“Dentro do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da UFBA, o trabalho contribui principalmente para o fortalecimento da Área de Concentração Construção Civil e Materiais e da Linha de Pesquisa Tecnologia e Gestão das Construções. Para a comunidade UFBA, a principal contribuição está na formação de pessoas e na construção de conhecimento interdisciplinar, envolvendo estudantes e professores de diferentes áreas e fortalecendo a capacidade da Universidade de desenvolver soluções tecnológicas e inovadoras para problemas reais da indústria e da sociedade. A Menção Honrosa representa um reconhecimento importante à excelência acadêmica do Programa, que conta com diversas pesquisas de ponta desenvolvidas e em desenvolvimento”, comemorou ela.
O trabalho já tem servido como base para outras pesquisas dentro do Grupo de Pesquisa e Extensão em Gestão e Tecnologia das Construções (GETEC). Atualmente, estão sendo desenvolvidos estudos voltados à solução de diferentes problemas de gestão da produtividade e da segurança na Construção Civil e nos canteiros de obras, por meio da aplicação dos princípios dos Gêmeos Digitais e de tecnologias relacionadas, como modelos tridimensionais, câmeras, drones, sensores e realidade virtual.
Recentemente, Caroline Araújo concluiu estágio de pós-doutorado na Pontificia Universidad Católica de Chile, em Santiago, onde disseminou seu trabalho e iniciou novas discussões sobre sua aplicação no contexto da Construção Industrializada e da Construção Enxuta.  Ela também ingressou como professora efetiva de Engenharia Civil na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde pretende dar continuidade a esses estudos em parceria com a UFBA.
Dentre os trabalhos futuros, estão previstos avanços na incorporação de Inteligência Artificial à implementação do Smart Twins 5.0 e à simulação computacional desenvolvida, além da criação de uma base de dados abrangente sobre canteiros de obras que utilizam o sistema construtivo de paredes de concreto na Bahia, possibilitando análises futuras e a geração de novos conhecimentos.
A tese de Caroline Araújo está disponível em: https://www.repositorio.ufba.br/handle/ri/42431?mode=full
 
Distinção na Enfermagem  
 
Com a tese "Acolhendo vítimas da violência sexual infantojuvenil por meio do fortalecimento das inter-relações de cuidado", a doutora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde Marimeire Morais da Conceição (foto) também obteve distinção no Prêmio Capes de Teses 2026.  A autora esteve sob orientação da professora Climene Laura de Camargo e coorientação da professora Maria Ribeiro Lacerda (UFPR).
 
O estudo teve origem no ano de 2018, durante a prática profissional, enquanto a pesquisadora atuava como enfermeira assistencial no Centro Cirúrgico de um hospital público de Salvador, em que atendia crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Na época, ela buscava artigos sobre o cuidado às vítimas de violência sexual e como não encontrava, percebeu que havia uma lacuna científica e elaborou o projeto do Mestrado intitulado "Cuidados hospitalares a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual".
 
Mesmo com uma metodologia puramente descritiva, obteve alguns resultados importantes, mas ao conhecer a Teoria Fundamentada nos Dados (TFD), em 2019, percebeu que seria possível explicar o fenômeno de interesse (cuidado a crianças e adolescentes), por isso, isso manteve o mesmo tema para o doutorado, a fim de compreender como ocorre o cuidado.
 
Na TFD não elaboramos uma só hipótese, explicou Marimeire. “O método é desenvolvido paulatinamente, com grupos de pessoas diferentes que explicam para a pesquisadora a sua percepção sobre o objeto de investigação. No caso da minha tese, são 78 pessoas, distribuídas em 07 grupos amostrais (11 crianças/adolescentes, 13 cuidadoras familiares e 54 profissionais - interdisciplinar/interprofissional). Antes de abordar cada grupo, eu elaborava uma hipótese, delimitava critérios de seleção, inclusão e exclusão, a primeira hipótese foi elaborada após duas entrevistas piloto e foi aplicada a todo o primeiro grupo.
 
Após as análises, surgiram lacunas que essas pessoas do primeiro grupo não responderam, assim elaborei outra hipótese para o segundo grupo. E assim continuou a elaboração de hipóteses e perguntas distintas até o sétimo grupo”, contou.
 
A coleta de dados iniciou em outubro de 2022 e se encerrou em setembro de 2025. Os obstáculos foram muitos: dificuldade de analisar cada entrevista realizada em profundidade (há entrevistas com duração superior a 3 horas e precisava encontrar nelas frases que indicassem ações e estivessem relacionada ao fenômeno de investigação (cuidado a crianças e adolescentes vítimas da violência sexual).
 
Cada frase foi transformada numa frase iniciada com o verbo no gerúndio (o que chamamos de código), no total elaborei 19.124 códigos, que foram refinados, reorganizados e a pesquisa terminou com 16.211 códigos. Coletar dados e analisá-los paralelamente é algo complexo, especialmente pelo número representativo da amostra de participantes que finalizou com 78 pessoas”, contou.
 
“Ao mesmo tempo, eu elaborava diagramas e registrava reflexões em memorandos que serviam para tomada de decisão na pesquisa, para a elaboração da discussão da tese, para aprofundar conceitos, realizar analogias e estabelecer correlações nas comparações constantes. Organizar esse material todo foi muito difícil, desgastante, demandava horas de trabalho e eu sentia que precisava manter tudo auditável, então eu registrava prints do software NVivo ao longo do trabalho”, acrescentou.
 
Ela contou que “a pesquisa foi realizada em 03 estados do Nordeste do Brasil (Alagoas, Bahia e Ceará) e em duas províncias do Norte de Portugal (Vila Real e Porto) e eu não era bolsista no PPGENF/UFBA, por isso fiz quase tudo com recursos próprios. Eu não tive bolsa de estudos para viajar para Alagoas e Ceará e realizar as coletas in loco, para superar essa dificuldade, desenvolvi um projeto no Edital da PROEXT (voltado para pós-graduandos) em 2022, solicitei recurso do PROAP/UFBA (em 2025) e consegui cobrir parcialmente as despesas”.
 
“Internacionalizar a pesquisa não foi muito fácil, pois eu não conhecia Portugal e não sabia se a temática era um tabu a ser abordado lá, por isso, meu projeto foi previamente planejado para que eu dar continuidade às análises no âmbito nacional. No entanto, quando cheguei à Vila Real identifiquei que existe um serviço voltado para as vítimas e me reorganizei para fazer coleta de campo, assim, o objetivo do projeto em Portugal foi superado em relação ao previsto. Em Portugal foi mais fácil adquirir recursos financeiros para realizar a coleta pois fui para lá através do Programa da CAPES Abdias Nascimento, tentei poupar a bolsa de estudos no exterior para poder realizar a coleta em Porto, pois eu estava morando em Vila Real e precisaria viajar algumas vezes”.
 
Na perspectiva de Marimeire, “o trabalho cobre lacunas importantes na ciência e deixa recomendações para o serviço, para o ensino, a pesquisa e a extensão”. Na ciência, fiz uma revisão de escopo que evidencia o ineditismo temático em estudos que utilizaram a TFD com o Interacionismo Simbólico (referencial filosófico que usei). Nessa mesma revisão mapeei 59 estudos de todo o mundo e, embora o Brasil seja o país que mais publica estudos aplicando esse método (+teoria), nenhum estudo antes foi desenvolvido no Nordeste, nenhum foi desenvolvido em países diferentes e em estados/províncias diferentes”.
 
“Além disso, o estudo dá voz às crianças e adolescentes, ao mesmo tempo que dá voz a suas cuidadoras familiares (todas mulheres e esse é um achado do estudo) e a profissionais da rede de atenção intersetorial (isso também era uma lacuna, pois os estudos buscavam apenas um grupo social como, por exemplo: ou profissionais da saúde ou da educação). Outra inovação, que distingue meu trabalho das demais TFD, foi a aplicação de multitécnicas de coleta de dados, eu utilizei a observação participante, a entrevista (com adultos) e o desenho-estória (com crianças/adolescentes)”, pontuou.
 
Acho que a contribuição para o meu programa de pós-graduação reside na complexidade metodológica que imprimi ao estudo e que alcancei com êxito. Meu estudo também pode servir de inspiração para outros estudantes e pode ser reproduzido em outras temáticas. O estudo tem sustentação em uma produção científica considerada de alto impacto, o que fortalece o perfil acadêmico do PPGENF com a submissão e publicação de artigos em periódicos de prestígio na área da enfermagem/saúde (como a Revista Latino-Americana de Enfermagem e a Online Brazilian Journal of Nursing), além da disponibilização de banco de dados suplementar em repositório aberto.
 
Para a comunidade UFBA, o estudo propõe a integração entre ensino, pesquisa e extensão. No ensino: a incorporação dos achados da teoria substantiva nos conteúdos programáticos dos cursos de graduação e pós-graduação da Escola de Enfermagem (EEUFBA), qualificando a formação de futuros profissionais para o atendimento intersetorial humanizado. Na Extensão: Recomenda a atualização e ampliação do 'curso de prevenção à violência sexual contra crianças e adolescentes', projeto extensionista originado na UFBA, focado no fortalecimento das inter-relações e do acolhimento.
 
“No que tange à comunidade/sociedade, a integração de diversas visões de mundo foi muito enriquecedora para mim, para as profissionais e familiares que entrevistei”, pontuou, acrescentando que  pois eu dava devolutiva a elas in loco dos resultados parciais. As crianças e adolescentes foram incluídas e isso também foi uma forma de cuidar, visto que vítimas de violência sexual têm suas vozes abafadas por estigmas e preconceitos sociais. Elas receberam um Termo de Assentimento Livre e Esclarecido que explicava em um formato de história em quadrinhos os direitos delas como participantes da pesquisa.
 
Além disso, as crianças/adolescentes participantes elaboravam desenhos sobre elas e as pessoas que cuidavam delas, após a elaboração da figura elas contavam uma história de cuidado (é a técnica desenho-estória), isso permitiu que elas elaborassem analogias e concepções de cuidado muito profundas e inovadoras diante do que está posto na atualidade. Ao mesmo tempo, a aplicação do desenho-estória respeita o grau de amadurecimento emocional, cognitivo e psicológico da criança/adolescente por utilizar uma técnica lúdica.
 
No momento, a prioridade para estudos futuros é o desenvolvimento de tecnologias audiovisuais para que a comunidade tenha acesso a informação."O trabalho poderia ter avançado para a investigação nas casas que acolhem as vítimas, bem como as creches que ficam com a guarda das crianças/adolescentes cujos familiares não têm condições de permanecer cuidando. Porém, é necessário aprofundar e desenvolver outros estudos com situações específicas de violência sexual infantojuvenil como o tráfico e exploração sexual de crianças/adolescentes, a violência sexual no ambiente virtual pois a forma de cuidar nessas circunstâncias pode precisar de outros elementos, também porque são situações que não fizeram parte da experiência dos participantes, então eu não tinha como interpretar.  Um estudo sobre a rede de atenção a vítimas de violência sexual infantojuvenil que precisam do procedimento de Aborto Legal também é necessário aprofundar", disse ela.
 
A tese de Marimeire Conceição está disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/44576
 
 
*Aplausos para a pesquisa em Dança
 
Outra tese digna de aplausos é "Ética quando dança: uma biblioteca de com.posições político-po.éticas",  elaborada pelo doutor pelo Jorge Luiz Alencar Sampaio (foto), sob orientação da docente, Lúcia Helena Alfredi de Matos, pelo Programa de Pós-Graduação em Dança da UFBA.
 
“A pesquisa foi concebida a fim de pensar o exercício ético na dança como prática relacional e compositiva em sua dimensão poético-política, argumentando que as decisões coreográficas que tomamos incidem nos domínios da produção do comum, da cena política do encontro uma vez que projeta espaços-tempos compartilhados entre artistas e públicos. Em termos éticos, a dança corporifica e põe em movimento certos valores e atos”, informou Jorge Alencar.
 
Ele pontuou que o trabalho foi desenvolvido ao longo de quatro anos, em formato de doutorado sanduíche, conectando o PPGDança (UFBA), com orientação da Profa Dra Lúcia Matos, e a Universidade JLU, em Giessen (Alemanha), com supervisão do artista e Prof. Dr. Xavier Le Roy. Dentre os desafios encontrado, esteve a elaboração de uma articulação precisa entre a dança e o complexo tema da ética, presente em variados campos do saber como a filosofia, a estética e a psicanálise. Pensar ética é uma urgência de nosso tempo, mas a questão é como elaborar uma ética em “situação de dança”, com qualidade coreográfica e poética, disse Alencar.
 
Na visão do pesquisador, a contribuição dos seus estudos é que eles apontam modos nos quais uma crítica ética sobre a moral e o moralismo contemporâneos pode agir no interior da linguagem, no campo cultural e na esfera pública desde o corpo e a relação entre corpos, seus afetos e intersubjetividades. “Considero esse movimento primordial nos fazeres dentro da Universidade, na produção científica e na comunidade acadêmica de forma geral, já que, nos últimos anos, no Brasil e em diversas partes do mundo, a Universidade, as pessoas artistas e agentes da cultura têm sofrido ataques frontais de uma parte da sociedade motivados por foças moralizantes e autoritárias”, racionalizou.
 
Em relação aos estudos futuros, Jorge identifica que “em minha pesquisa, há encaminhamentos metodológicos que podem contribuir na compreensão da prática criativa como dispositivo ético passíveis de serem implementados em ações po.éticas e pedagógicas seja nas artes ou em outros contextos de partilha e de produção do sensível, vinculando ética, estética e política” .
 
A tese de Jorge Araújo está disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/42291 
 
 
 
*Louvor interdisciplinar para os Estudos Étnicos e Africanos
 
Outra pesquisa digna de louvor é Racismo obstétrico e produção de iniquidades na atenção ao parto: uma etnografia de trajetórias reprodutivas em Salvador/BA, realizada pela doutora Giovanna De Carli Lopes (foto), pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos e orientada pelas docentes, Cristiane Santos Souza e Liliane de Jesus Bittencourt. 
                 
O estudo foi concebido a partir de observações de Giovanna que vinha estudando a temática da violência obstétrica há alguns anos e, a partir da experiência com o mestrado, percebeu que era necessário enxergar essas questões com a lente do racismo também. “Comecei pesquisando a partir da intersecção da violência obstétrica com o racismo, com a hipótese de que ‘a violência obstétrica tem cor’.
 
Quando me deparei com o conceito de racismo obstétrico, proposto pela antropóloga negra estadunidense Dana Ain-Davis, pensei que ele poderia fazer sentido no contexto brasileiro, também, e decidi utilizá-lo como lente analítica para pensar as relações no contexto da atenção ao parto”, contou.
 
“O campo de pesquisa teve uma duração de um ano, com 9 meses de acompanhamento das interlocutoras em seu trajeto institucional e 3 meses de análise dos seus prontuários, além do período de leitura e escrita pré-campo e do período pós-campo, que consistiu na finalização da minha formulação etnográfica”, contabilizou. “Além dos acompanhamentos nas consultas de pré-natal e análise dos prontuários, realizei entrevistas em profundidade com dez interlocutoras e seis profissionais de saúde”, disse Giovanna. 
 
Ela lembrou que “os obstáculos foram vários, desde a obtenção da anuência para adentrar uma instituição de saúde e pesquisar a temática do racismo durante a pandemia, até a inserção no campo propriamente dita, passando pelo desafio de ocupar esse lugar de fronteira de ser enfermeira obstetra pesquisando no campo da antropologia da saúde, o que me levou a decisão metodológica de não usar jaleco durante os acompanhamentos das gestantes-interlocutoras. Isso por um lado facilitou a criação de vínculo e confiança com elas mas despertou desconfiança e questionamentos por parte dos profissionais de saúde”.
 
Na visão da pesquisadora, “a contribuição da pesquisa diz respeito principalmente à produção de conhecimento sobre como as iniquidades são forjadas na prática cotidiana e de que forma o racismo obstétrico atravessa as experiências reprodutivas e produz diferentes possibilidades de cuidado para as mulheres. Para além da universidade, espero que esse conhecimento possa contribuir para qualificar o debate sobre racismo e saúde e para pensar estratégias multifatoriais e práticas de cuidado mais equitativas na atenção obstétrica”.
 
Para o dimensionamento de estudos futuros, Giovanna delineia que “um dos caminhos é investigar como o racismo obstétrico se manifesta em outros territórios, regiões do Brasil e contextos de atenção à saúde, buscando compreender o que se repete e o que assume características próprias em cada realidade. Outro ponto importante para uma futura investigação analisar como a racionalidade biomédica no campo da gineco-obstetrícia se constrói a partir das imagens de controle que encontrei na minha pesquisa”, finalizou. 
 
A tese de Giovanna De Carli está disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/44573
 
 
Prêmio Capes de Teses e mais participação da UFBA
 
Esta foi a 21ª edição do Prêmio CAPES de Tese. Ela avalia teses de doutorado defendidas em 2025 nos programas brasileiros de pós-graduação e contempla as 50 áreas de avaliação da CAPES. Além do prêmio por área, três trabalhos são posteriormente escolhidos para o Grande Prêmio CAPES de Tese, um em cada colégio: Ciências da Vida; Humanidades; e Ciências Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar.
 
O instrumento oficial foi o Edital CAPES nº 14/2026, publicado em 23 de abril de 2026. Para o Grande Prêmio CAPES de Tese, cada um dos três autores recebe certificado, troféu e bolsa de pós-doutorado no exterior por até 12 meses; o orientador recebe R$ 9 mil para participação em congresso internacional.  Para cada vencedor das áreas, o Prêmio CAPES de Tese prevê: certificado e medalha ao autor; certificado ao orientador, coorientadores e PPG; R$ 3.000 para o orientador; bolsa de pós-doutorado no Brasil por até 12 meses para o autor; passagem aérea e diária para autor e orientador participarem da cerimônia, condicionadas às disponibilidades orçamentárias e à realização presencial.
 
Para incentivar a participação de mais membros da comunidade UFBA, a Pró-Reitoria de Ensino de Pós-Graduação da UFBA pretende fortalecer uma política permanente de valorização da excelência e da qualidade na formação de mestres e doutores, sem perder de vista a diversidade das áreas de conhecimento e o compromisso social da Universidade. "Vamos manter e ampliar ações de apoio aos Programas de Pós-Graduação para a formação qualificada, a pesquisa, a internacionalização e a inserção dos nossos programas em redes nacionais e internacionais. Também pretendemos fortalecer iniciativas que estimulem a produção científica de qualidade, a participação dos estudantes em ambientes acadêmicos internacionais e a disseminação dos resultados de pesquisa", disse a pró-reitora Dayana Bastos Costa (foto). 
 

Outro eixo fundamental será o apoio aos programas de pós-graduação no aprimoramento de seus processos de planejamento e avaliação, utilizando os resultados da avaliação da CAPES como instrumento para identificar potencialidades, enfrentar desafios e construir estratégias de desenvolvimento. Nosso objetivo é criar cada vez melhores condições para que a excelência seja sustentável e os resultados da pós-graduação da UFBA tenham impacto crescente na ciência, na tecnologia, na inovação e na sociedade, assegurou Costa.